A hora da verdade
“Nós devemos evitar uma situação na qual o estrategista financeiro (traders e engenheiros financeiros) não tem a experiência necessária para avaliar os riscos envolvidos e seus superiores se sentem encabulados demais para reconhecer que não entendem as novas estratégias”.
Allan Greenspan
No início dos anos 90 os mercados financeiros internacionais começaram a operar, em larga escala, contratos derivativos de naturezas diversas. Contratos derivativos são aqueles que derivam e dependem da existência de um contrato ou mercado formal, que lhes proporcione referências de preço e prazo. Em seu início, usados como hedge de posições assumidas, compradas ou vendidas, os derivativos ofereciam proteção contra a volatilidade dos mercados: de ouro, de ações, de commodities, de crédito etc.
Dentro de suas limitações, os órgãos reguladores e supervisores em grande parte do mundo procuraram normatizar as novas operações, tendo por objetivos limitar riscos e trazer mais transparência a esses novos mercados.
“Transparency is defined as public disclosure of reliable and timely information that enables users of that information to make an accurate assessment of a bank’s financial condition and performance, business activities, risk profile and risk management practices”.
BIS, Enhancing Bank Transparency, September, 1998.
Em livre tradução, o Comitê da Basiléia, ao se referir à questão no Novo Acordo (Basiléia 2) assim definiu Transparência como a palavra chave da disciplina do mercado. A divulgação pública, confiável e tempestiva de informações, atingindo aspectos qualitativos e quantitativos, que permita a seus usuários uma análise detalhada e completa sobre a performance, atividade, perfil de risco, práticas gerenciais de uma instituição financeira, que é fundamental para uma supervisão bancária robusta, capaz de antecipar problemas em uma instituição ou no próprio sistema bancário como um todo.
Em julho de 2007, em artigo denominado “O CARRY TRADE, O SUBPRIME E O CREDIT CRUNCH, chamamos a atenção para a deterioração do mercado de hipotecas nos Estados Unidos, o que vem sendo conhecido como a crise do subprime. Elevadas perdas em hedge funds e bancos internacionais começavam a aparecer em seus balanços, sendo essas perdas relativizadas por mercados ávidos de risco, agências de rating e banqueiros centrais desavisados. Na ocasião, mostramos nossos temores a respeito da probabilidade de restrições severas para concessão de créditos (credit crunch), com potencial para drenar a enorme liquidez internacional.
Grande volume de recursos, decorrente da enorme liquidez internacional, foi aplicado no sistema de hipotecas de imóveis americanos destinado a tomadores com alto risco de crédito (subprime). O aumento da inadimplência nesses empréstimos e a queda no preço dos imóveis, dados em garantia, acarretaram uma degradação da qualidade desses créditos. Naquela ocasião as perdas estimadas por fundos e bancos financiadores eram da ordem de U$ 80 bilhões. Em seu início as cifras eram bem mais modestas, em torno de U$ 12 bilhões, o que evidentemente era mínimo com relação ao tamanho do mercado americano.
Nunca se poderá afirmar se as atitudes iniciais do FED foram corretas e tempestivas, no que diz respeito à redução dos juros e assistência de liquidez ao sistema. Nesse exato momento, vendido a preço de liquidação o Banco Bear Sterns, as perdas contabilizadas já somam U$ 200 bilhões. O número exato do prejuízo, talvez nunca saibamos.
O que se faz necessário nesse momento é algo que não nos parece haver: transparência no mercado financeiro americano. Os órgãos reguladores falharam; as agencias de classificação de risco mais uma vez falharam; as autoridades monetárias falharam e, mais que tudo, as instituições financeiras em muito falharam.
“Estamos em meio a um colapso financeiro”. Disse um diretor do FED.
“Não se trata de uma crise de crédito, trata-se de uma crise de confiança, uma crise de fé”.
Paul Krugman.
Myron Sholes, um Premio Nobel em finanças acha que o governo americano vai gastar um monte de dinheiro do contribuinte para resolver a bagunça do mercado de crédito e evitar uma catástrofe econômica.
“O FED está respondendo agressivamente, mas sua capacidade é limitada”. Manifestou-se assim o ex-governador do FED Larry Meyer.
“A crise no setor de moradias dos EUA infelizmente ainda está longe do fim”. William Rhodes, presidente do Citibank.
Poderíamos citar mais inúmeras declarações de autoridades e analistas a respeito dessa crise financeira internacional. Muito ainda vai se escrever sobre o assunto. Mais uma vez teremos, provavelmente, o adiamento da resolução dos problemas, que passam pela correção da economia americana. Com boa chance mais uma bolha será criada para estourar mais adiante. As autoridades reguladoras e supervisoras vão se manifestar a respeito de mais medidas de controle e os mandatários de alguns países vão proclamar a robustez de suas economias nada transparentes.
Roberto Leonardo Moreira
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